sábado, 26 de fevereiro de 2011

Tributo a Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

Tributo a Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

 A maior expressão da música popular brasileira de todos os tempos.




"Eu vou mostrar pra vocês
como se dança o baião
e quem quiser aprender
é favor prestar atenção"
(Baião, Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira, 1946)
 
     O Brasil prestou atenção e aprendeu como se dança o Baião. E mais que isso, se encantou com o balanço do gênero musical popular que principiou, ladeando a perfeição, em retratar e historiar, a vida, os costumes, a cultura e o sofrimento do povo nordestino, bem como, em gritar e denunciar as suas angústias em face de um  apartheid político que sempre existiu neste País, em relação ao nordeste.

     E o brado retumbante ecoou exatamente do centro de todos esses fenômenos, emergindo simplesmente por força da natureza e transformando-se em mito, sem precisar agregar, devido à grandeza da sua áurea, adereços externos, para se tornar a maior expressão da música verdadeiramente popular brasileira.

     Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu na Fazenda Caiçara, povoado de Araripe, a cerca de 12 km na cidade de Exu (PE), no dia 13 de Dezembro de 1912, filho de Januário José dos Santos e Ana Batista de Jesus (Mãe Santana). Foi batizado na matriz de Exu, no dia 05 de janeiro de 1913, cuja celebração batismal foi realizada pelo Pe. José Fernandes de Medeiros.

     Luiz, foi nome dado em homenagem a Santa Luzia, a Santa do dia do seu nascimento, dia 13 de Dezembro. Gonzaga, foi sobrenome dado pelo padre que o batizou, segundo ele, para completar o nome do Santo Luiz Gonzaga. Nascimento, foi acrescido em razão de ter o menino nascido na véspera de Natal, quando se comemora o nascimento de Cristo.

    Luiz Gonzaga cresceu ouvindo o fole de oito baixos do pai Januário e em meio à cultura do lugar, representada fortemente pelo balanço promovido por um trio de instrumentos aparentemente simples, mas com recursos para produzir harmonias musicais complexas e ritmos extremamente agradáveis para a dança: a sanfona, o zabumba e o triângulo.

    No nordeste, àquela época, o trabalho na roça, o manejo do gado e a luta pela vida, numa seca implacável, eram ingredientes inesgotáveis para registro, na forma cultural de maior expressão regional: a música.

    O menino Gonzaga, de forma mais intensa que seus outros irmãos: (João, Joca, José, Severino, Aluízio, Socorro, Geni e Chiquinha), se contaminou com o ruído da sanfona e logo passou a demonstrar aptidão para esticar o fole. Curioso nessa história é o registro semelhante com a trajetória do grande maestro Vila Lobos, que chegou a ser amarrado e açoitado pelo pai quando manifestou interesse pela música. Com Luiz Gonzaga algo parecido ocorreu, quando, certo dia, estando o velho Januário trabalhando na roça, Luiz se apoderou da sanfona do pai e começou a extrair algumas modinhas da época. Ao ver aquela cena, D. Santana lhe chamou atenção com um safanão e o advertiu de que não lhe queria tocando sanfona, para que não se perdesse sertão a fora.

    De nada adiantou a repressão dos pais e Luiz Gonzaga logo foi notado pelos sanfoneiros da região e admirado pelo talento que possuía, a ponto de não haver mais oposição dos pais, que passaram a admitir que “filho de peixe peixinho é”.

A andança pelos terreiros de forró resultou em namoro com a filha de um fazendeiro importante da cidade, que ao saber da pretensão do sanfoneiro, mandou lhe o seguinte recado: “Um diabo que não trabalha, não tem roça, não tem nada, só puxando aquele fole, como é que quer se casar? É isso, mora nas terras dos Aires e pensa que é Alencar. Os Aires podendo tirar o couro daquele negro, dão liberdade e agora quer moça branca pra se casar...”.  Luiz não gostou e chegou a comprar uma peixeira para tomar satisfação com o pai da moça. O encontro não aconteceu porque, D. Santana soube da história e deu-lhe uma grande surra.

    Envergonhado com a reprimenda da mãe, Luiz decidiu fugir de Exu. Para tanto, só tinha uma alternativa: sentar Praça no Exército. Assim fez, tornando-se o recruta de nº 122, corneteiro da tropa e apelidado como “Bico de Aço”. E como ele mesmo diz nos relatos entre uma música e outra, nos seus shows: “participei de muitas revoluções mais nunca dei um tiro”.
    Em 1939, Luiz deixa o Exército e volta ao dilema sobre o seu destino, quando aconselhado por um colega de farda, no Rio de Janeiro, onde estava alojado no quartel, de que deveria tentar uma forma de vida tocando na Região do Mangue (a zona de prostituição da época).

    O cantador nordestino, ouvindo o conselho do amigo, refletiu, e como não lhe apareceu outra alternativa,  arregimentou outros músicos e enfrentou a zona do baixo meretrício carioca, onde logo conquistou seus freqüentadores com o fole da sanfona, o balando do baião e o vozeirão na garganta. Não demorou e as portas se abriram para a música nordestina que trazia nas veias. Inserido no meio, conheceu outros artistas da época e logo estava ampliando espaço e conquistando a sociedade carioca com uma nova moda musical.

Certo dia conheceu Ary Barroso, que ao ouvi-lo cantando ritmos estrangeiros, lhe aconselhou: “Rapaz, procure um emprego”. Luiz ficou decepcionado e respondeu: “ Seu Ary, me dá oportunidade pra tocar um chamego? Chamego? O que é isso no rol das coisas mundanas? perguntou Ary Barroso. Luiz respondeu: “Chamego é musga pernambucana”. Ary voltou a indagar: “Como é o nome disso?” e Luiz respondeu: “Vira e Mexe”. Finalizou Ary barroso: “Pois arrivira e mexe esse danado... a gente vê cada uma”. Luiz tocou o Vira e Mexe e conquistou a todos, inclusive o grande Ary Barroso, que deu-lhe nota 5 e o prêmio de 15$000.
    Do mangue Luiz saiu para a Lapa, para a Gafieira Elite, na Praça da República, e em pouco tempo estava se apresentando nas emissoras de rádio mais ouvidas do Rio de Janeiro.

    Em Março de 1941, quando Luiz Gonzaga gravava uma pequena participação instrumental na RCA, encantou o seu diretor e este o convidou para voltar no dia seguinte para gravar suas músicas.

Mas a trajetória ainda estava em construção. O impulso da obra de Luiz Gonzaga acontece com o encontro entre o sanfoneiro cantador e seus parceiros musicais, dentre eles, o Cearense de Iguatu, Humberto Cavalcanti Teixeira, nascido em 1915 e o pernambucano de Carnaúba, distrito de Pajeú das Flores, José de Sousa Dantas Filho.

    As pérolas musicais começam a ser produzidas em seqüência por Luiz Gonzaga e seus mais importantes parceiros. Asa Branca veio em 1947, da lavra de L. Gonzaga e Humberto Teixeira. Seus versos, em linguagem cabocla, vestiram-se de uma universalidade musical inigualável e tornou-se eterna pelo composto poético de rara beleza, retratando uma história de amor em meio ao sofrimento do sertanejo com a falta de chuva. Esta música, noutro país de maior elevação cultural, teria virado filme. Quiçá um dia isto aconteça por aqui?!
“Quando o verde dos teus olhos, se espalhar na plantação, eu te asseguro, não chores não viu, que eu voltarei viu Meu coração”.

     Em 1950, quando ainda não existia coro qualquer voz que se levantasse pela preservação ambiental, surge o grito do Assum Preto, registrando os maus tratos a esta espécie da Fauna brasileira. A canção denuncia que a ave era capturada e tinha os olhos furados para que parecesse mansa e assim fosse vendida por melhor preço. A música, além da beleza poética, trás um apelo político de conscientização ambiental numa feliz inspiração da dupla: Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga:

“Tudo em volta é só beleza, sol de abril e a mata em flor, mas Assum Preto, cego dos olhos, não vendo a luz ai canta de dor... ...mil vez a sina de uma gaiola, desde que o céu ai pudesse olhar...”

O voar da Asa Branca se repete com igual beleza e absoluta independência melódica, anunciando um novo tempo no sertão: a expectativa de chuva, convocando o sertanejo de volta à terra, no início dos anos 50. É mais uma obra da maravilhosa dupla: Luiz Gonzaga e Zédantas, A Volta da Asa Branca.

“Já faz três noites que pro Norte relampeia, a Asa Branca ouvindo o ronco do trovão, já bateu asas e voltou pro meu sertão, ai ai eu vou me embora, vou cuidar da plantação...”

     Nenhum político brasileiro representou tão bem o seu povo, como fez Luiz Gonzaga, que sem mandato político, sem voto e sem representação formal, gritou com a sua poesia e com a sua música em defesa do sertanejo. No ano de 1953, a seca torrou o solo do sertão nordestino, acabou com o pasto, matou o gado e expulsou o sertanejo da sua terra. A fome transformou muitos trabalhadores em pedintes pelas ruas, dependendo da solidariedade dos sulistas e da piedade de todo o Brasil. Luiz Gonzaga e Zédantas constroem mais uma pérola da música sertaneja, nela registrando a seca e a fome no Nordeste, e clamando aos políticos que acudissem o povo sertanejo. Nasce Vozes da Seca. A canção conseguiu mexer com os sentimentos dos brasileiros e, certo dia, o então Deputado Federal Juscelino Kubitscheck de Oliveira, subiu à tribuna da Câmara dos Deputados e clamou: “Sr. Presidente, a música de Luiz Gonzaga e Zédantas vale mais do que cem discursos, tenho dito”. Referia o parlamentar à música Vozes da Seca.

“...mas doutor uma esmola, a um homem que é são,  ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”... ...livre assim nos da esmola, que no fim desta estiagem lhe pagamos até os juros sem gastar nossa coragem...”.

    O Rei do Baião deixou o seu reinado há 18 anos, precisamente às 05:15h., do dia 02/08/89, no Hospital Santa Joana, em Recife, mas ingressou na história da cultura brasileira como expressão máxima da nossa música, através da qual encantou e encanta a todos. Sua história é uma das mais procuradas por pesquisadores do mundo inteiro, sendo inclusive objeto de pesquisa em tese de mestrado e doutorado em várias universidades do Brasil e de outros países. O acervo da sua obra, documentários e causos registrados nas suas andanças por este País encontram-se no Museu de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, na cidade de Exu, Pernambuco, terra onde nasceu e onde buscou descanso nos seus últimos dias de reinado.

    O Brasil ainda não rendeu as homenagens merecidas ao seu inesquecível filho Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião, pelo que produziu como poeta, músico e instrumentista dos melhores que esta terra já deu; pela importância política que exerceu na defesa do sertanejo e até no papel de pacificador de conflitos na região onde viveu; pela riqueza cultural que deixou a este país e por tudo que representou ao longo de 50 anos de viajante tocador pelas estradas deste País, especialmente para o sertanejo, do qual era o seu representante maior. Como disse na sua canção, a sua ausência só nos faz repetir: “Saudade assim faz doer e amarga que nem jiló, mas ninguém pode dizer que me viu triste a chorar. saudade, o meu remédio é cantar...”.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Nordestinos relembram 21 anos sem Luiz Gonzaga

Nordestinos relembram 21 anos sem Luiz Gonzaga

Forrozeiros de todo o Nordeste lembram, hoje (2), a morte do cantor e compositor Luiz Gonzaga do Nascimento, o “Rei do Baião”. Luiz Gonzaga nasceu em 13 de dezembro de 1912 na zona rural de Exu, sertão de Pernambuco. No lugar, seria revivido, anos mais tarde, em “Pé de Serra”, uma de suas primeiras composições.

Relembre os grandes sucessos de Luiz Gonzada no vídeo ao lado, produzido pelo canal Trama.
O “Rei do Baião” aprendeu a tocar acordeão com seu pai, Januário, que trabalhava na roça e, nas horas vagas, tocava o insctrumento, que também consertava. A canção emblemática de sua carreira foi “Asa Branca”, que compôs em 1947, em parceria com o cearense Humberto Teixeira.

Em abril de 1945, Luiz Gonzaga gravou sua primeira música – “Dança Mariquinha” em parceria com Saulo Augusto Silveira Oliveira – , em estúdio, como cantor.

Gonzaga sofria de osteoporose. Morreu no dia 2 de agosto de 1989, vítima de parada cardiorrespiratória no Hospital Santa Joana, na capital pernambucana. Seu corpo foi velado em Juazeiro do Norte (a contragosto de Gonzaguinha, seu filho, que pediu que o corpo fosse levado para sua cidade natal) e, posteriormente, sepultado em Exu.

Patrick/Wikimedia Commons
Estátua em homenagem a Luiz Gonzaga, em Campina Grande. Foto: Patrick/Wikimedia Commons.

Luiz Gonzaga deixou um grande legado para o forA música brasileira, em seus quase 50 anos intensos de carreira artística. Em sua homenagem, o grande compositor ganhou uma estátua de bronze que, junto com Jackson do Pandeiro, fica de frente ao Açude Velho, na cidade de Campina Grande (PB), onde ocorre, todos os anos, o chamado “Maior São João do Mundo”, que embala multidões no ritmo do forró.

MEMÓRIA DO REI

Memória
Luiz Gonzaga - A voz de um povo sem voz

Nenhum artista brasileiro foi tão importante para a cultura das regiões Nordeste e Norte do Brasil, para a divulgação de como vivia, trabalhava e sofria o homem do mato quanto Luiz Gonzaga do Nascimento, filho do mestre sanfoneiro Januário e da roceira Ana Batista de Jesus, que um dia saiu da pequena cidade de Exu, região do Araripe, no sertão pernambucano, para conquistar o Brasil e fazer sua sanfona conhecida nos quatro cantos do país e até no exterior (infelizmente, só no fim da vida conheceu o sucesso lá fora, quando a convite da cantora Nazaré Pereira fez um belíssimo show em Paris, na casa de espetáculos Bobino). A música de Luiz Gonzaga, que foi coroado “Rei do Baião”, tem para o povo do Norte e do Nordeste do Brasil a importância da fé no Padre Cícero Romão. E já subiu ao posto mais alto do pódio onde também merecem medalhas o xaxado de Jackson do Pandeiro, a arte de barro do mestre Vitalino, a poesia de Patativa do Assaré e de Azulão e a sabedoria moleque de Ariano Suassuna.

Luiz Gonzaga nasceu no dia 13 de dezembro de 1912, na roça, e passou a infância ajudando o pai e o irmão mais velho a plantar milho e feijão na fazenda Caiçara. Januário tinha fama de ser o maior sanfoneiro da região, ganhava uns trocados animando festas juninas e outros arrasta-pés, e o filho logo se interessou pelo ofício e pelo instrumento. Ganhou uma sanfoninha, depois comprou outra um pouco melhor quando serviu ao Exército e um dia empunhou um acordeon profissional para encantar os conterrâneos e correr o chapéu na antiga zona do mangue do Rio de Janeiro, cercanias dos bairros do Estácio e Praça Onze, onde o Rei desembarcou com vinte e poucos anos de idade para fazer o seu nome. E que nome. Herança e orgulho do cancioneiro popular do Brasil.

“O candeeiro se apagou/O sanfoneiro cochilou/A sanfona não parou/E o forró continuou”. Continuou por mais de meio século, período em que o Gonzaga gravou mais de cem discos (entre 78 rotações, LPs e CDs) e compôs grande número de sucessos, com mais de uma dezena de parceiros (os mais freqüentes foram Humberto Teixeira, Zé Dantas, João Silva, Hervê Cordovil, Guio de Moraes e Onildo de Almeida).

Gonzagão (apelido que ganhou quando o filho Luiz Gonzaga Júnior começou a fazer sucesso na MPB. Existem controvérsias com relação a essa paternidade, pois alguns livros, depoimentos e documentos dão conta de uma possível esterilidade de Luiz Gonzaga. Segundo esses depoimentos, Gonzaguinha, que fora criado no Morro de São Carlos pelo casal Dina e Xavier, compadres de Luiz, seria na verdade filho de uma namorada do sanfoneiro, que mais tarde veio a ser sua companheira) viveu fases muito distintas durante sua trajetória artística. Conheceu o sucesso de perto e andou colado com ele por muitos anos, ganhou dinheiro suficiente para instalar no Rio de Janeiro seus pais e irmãos, distribuindo casas e sítios para todo mundo, mas também enfrentou fases difíceis na vida, de sucesso quase nenhum, vendas inexpressivas de discos e alguma proximidade com o ostracismo.

Luiz Gonzaga era um artista mambembe, que corria o Brasil inteiro, ano a ano, fazendo shows das grandes capitais aos municípios distantes e minúsculos. Em todas as excursões incluía o Nordeste, pois tinha verdadeira paixão pelo seu povo. Batalhou durante toda a vida para pacificar a cidade de Exu, quando esta vivia uma eterna guerra entre duas famílias rivais (Alencar e Sampaio) que transformaram a região em verdadeiro inferno, com um mata-mata que parecia jamais ter fim. Não sossegou enquanto não conseguiu a paz, além de escolas agrícolas, frentes de trabalho e produção de poços artesianos que em muito minimizaram as agruras das secas.

“Seu Luiz”, como era carinhosamente tratado pelos amigos, vivia repetindo que não poderia prescindir de parceiros, porque não sabia trabalhar sem um poeta do lado. Achava-se um homem rude e sem traquejo com as palavras, o que não era verdade. Luiz Gonzaga tinha, sim, um olhar extremamente poético sobre o mundo e o revelou diversas vezes em entrevistas, participações em programas de rádio e TV e no longo depoimento que deu à pesquisadora francesa Dominique Dreyfus, autora do livro Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga. Explicando a ela, por exemplo, a razão dos longos períodos de chuva que costumavam alegrar Exu, o Rei do Baião disse em poucas palavras o que um meteorologista gastaria muito verbo para dizer: “O pé de serra tem sempre essas matas, essas montanhas que atraem as chuvas. Tem um vento que desvia o rumo da chuva. Ela se forma, vem e quando chega no alto da serra, se divide, parte pra tudo que é canto”.

A música brasileira deve muito a Luiz Gonzaga, à sua antena sempre direcionada no rumo da expressão mais pura do povo, à sua voz encorpada e doce, capaz de derreter os mais duros corações, e à sua sanfona de prata, “do povo”, como ele mandou gravar certa vez no instrumento. Para o cantor e compositor baiano Gilberto Gil, que sempre se disse um discípulo e devoto apaixonado do iluminado forrozeiro, o nome de Luiz Gonzaga “se inscreve na galeria dos grandes inventores da música popular brasileira, como aquele que, graças a uma imaginativa e inteligente utilização de células rítmicas extraídas do pipocar dos fogos, de moléculas melódicas tiradas da cantoria lúdica ou religiosa do povo caatingueiro, e, sobretudo da alquímica associação com o talento poético e musical de alguns nativos nordestinos emigrantes como ele, veio a inventar um gênero musical” (em prefácio para o livro de Dominique).

IMAGENS DO GONZAGÃO






domingo, 20 de fevereiro de 2011

GONZAGÃO

VIDA DE LUIZ GONZAGA

Luiz Gonzaga

13/12/1912, Exu (PE)
02/08/1989, Recife (PE)

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Divulgação/BMG

Luiz Gonzaga trouxe os ritmos do sertão nordestino para os meios de comunicação de massa
Luiz Gonzaga do Nascimento era filho de Januário José Santos, lavrador e sanfoneiro, e de Ana Batista de Jesus, agricultora e dona de casa. Desde criança se interessou pela sanfona de oito baixos do pai, a quem ajudava tocando zabumba e cantando em festas religiosas, feiras e forrós.


Saiu de casa em 1930 para servir o exército como voluntário, mas já era conhecido como sanfoneiro. Viajou pelo Brasil como corneteiro e, de vez em quando se apresentava em festas, tocando sanfona. Deu baixa em 1939 e foi morar no Rio de Janeiro, levando sua primeira sanfona nova.


Passou a tocar nos mangues, no cais, em bares, nos cabarés da Lapa, além de se apresentar nas ruas, passando o chapéu para recolher dinheiro. Começou a participar de programas de calouros, inicialmente sem êxitos, até que, no programa de Ary Barroso, na Rádio Nacional, solou uma música sua, "Vira e mexe", e ficou em primeiro lugar. A partir de então, começou a participar de vários programas radiofônicos, inclusive gravando discos, como sanfoneiro, para outros artistas, até ser convidado para gravar como solista, em 1941.


Prosseguiu fazendo programas de rádios, que estavam no auge e tinham artistas contratados. Trabalhou na Rádio Clube do Brasil e na Rádio Tamoio, e prosseguia gravando seus mais de 50 solos de sanfona. Em 1943, já na Rádio Nacional, passou a se vestir como vaqueiro nordestino e começou a parceria com Miguel Lima, que colocou letra em "Vira e mexe", transformando-a em "Chamego", com bastante sucesso. Nessa época, recebeu de Paulo Gracindo o apelido de Lua.


Sua parceria com Miguel Lima decolou e várias músicas fizeram sucesso: "Dança, Mariquinha" e "Cortando Pano", "Penerô Xerém" e "Dezessete e Setecentos", agora gravadas pelo sanfoneiro e, também cantor, Luiz Lua Gonzaga. No mesmo ano, tornou-se parceiro do cearense Humberto Teixeira, com quem sedimentou o ritmo do baião, com músicas que tematizavam a cultura e os costumes nordestinos. Seus sucessos eram quase anuais: "Baião" e "Meu Pé de Serra" (1946), "Asa Branca" (1947), "Juazeiro" e "Mangaratiba" (1948) e "Paraíba" e "Baião de Dois" (1950).


Em 1945, assumiu a paternidade de Gonzaguinha, seu filho com a cantora e dançarina Odaléia. E, em 1948, casou-se com Helena das Neves. Dois anos depois, conheceu Zé Dantas, seu novo parceiro, pois Teixeira cumpria mandato de deputado estadual, afastando-se da música. Já em 1950, fizeram sucesso com "Cintura Fina" e "A Volta da Asa Branca". Nessa década, a música nordestina viveu sua fase áurea e Luiz Gonzaga virou o Rei do Baião.


Outros ritmos, como a bossa-nova, subiram ao palco, e o Rei do Baião voltou a fazer shows pelo interior, sem perder a popularidade. Zé Dantas faleceu em 1962 e o rei fez parcerias com Hervê Cordovil, João Silva e outros. "Triste Partida" (1964), de Patativa do Assaré, foi também um grande sucesso. Suas músicas começaram a ser regravadas pelos jovens cantores: Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Caetano Veloso, que o citavam como uma das influências. Durante os anos 70, fez shows no Teatro Municipal, de São Paulo e no Tereza Raquel, do Rio de Janeiro.


Nos anos 80, sua carreira tomou novo impulso. Gravou com Raimundo Fagner, Dominguinhos, Elba Ramalho, Milton Nascimento etc. Sua dupla com Gonzaguinha deu certo. Fizeram shows por todo o país com "A Vida de Viajante", passando a ser chamado de Gonzagão. Em 84, recebeu o primeiro disco de ouro com "Danado de Bom". Por esta época apresentou-se duas vezes na Europa; e começaram a surgir os livros sobre o homem simples e, por vezes, até ingênuo, que gravou 56 discos e compôs mais de 500 canções.

DOCUMENTÁRIO DO GONZAGÃO


Gonzaga nasceu em 13 de Dezembro de 1912, na Fazenda Caiçara, em Exu, distante 603 Km da Capital Pernambucana. Segundo dos nove filhos da união do casal Januário José dos Santos e Ana Batista de Jesus(Santana), veio ao mundo dividido entre a enxada e a sanfona. Foi observando seu pai animando bailes e consertando velhas sanfonas, que lhe desperta a curiosidade por tal instrumento. Certa vez seu pai encontrava-se na roça e sua mãe na beira do rio, o mesmo pegou uma velha sanfona e começou a tocar. Santana, que não queria que o filho trilhasse o mesmo caminho do pai, dava-lhe puxões de orelha que nada adiantavam. Luiz seguia em frente, acompanhando seu pai em diversos forrós, revezando-se com ele na sanfona e ganhando seus primeiros trocados. Um belo dia Januário foi pego de surpresa quando o Srº Miguelzinho, dono de um forró, pediu para que Gonzaga tocasse, este havia acordado com um outro tocador que não apareceu. A salvação foi JanuárioSantanaconvidar o então menino Gonzaga que já mostrara suas habilidades no mesmo terreiro, sem a anuência de seus pais. Fez muito sucesso. E por aquelas "bandas" era conhecido por Luiz de Januário. Assim o Forró rolou solto ao longo da noite, Gonzaga sentia-se feliz, empolgado, era a primeira vez que tocava com o consentimento da mãe. Com o passar da noite, começou a sentir seus olhos arderem, a cabeça pesar, foi então que pediu para deitar na rede e de tão menino que era, ainda fez xixi enquanto dormia. Daí então passou a acompanhar Januário em festas de mais responsabilidades, revezavam-se entre toques e cochilos. Santana a princípio relutava, mas deixou-se levar pelos dois mil réis que o principiante tocador ganhava em suas "empreitadas". Assim cresceu Gonzaga: ajudando o pai na roça e na sanfona, acompanhando Santana às feiras do Exu, fazendo pequenos serviços para os fazendeiros da região, sendo protegido pelo Cel. Manuel Aires de Alencar, homem bondoso e respeitado até por seus inimigos. Gonzaga era bem tratado pelos Aires de Alencar, tanto que suas primeiras escritas e leituras foram ensinamentos das filhas do Coronel.
.
Foi o próprio Coronel Aires quem realizou o grande sonho de Gonzaga: possuir sua primeira sanfona. Tal instrumento custava a importância de cento e vinte mil réis, Gonzaga tinha só a metade, a outra o próprio Coronel adiantou, quantia esta paga mais tarde com o fruto do seu trabalho de sanfoneiro. O primeiro dinheiro ganho com a nova sanfona foi no casamento de Seu Dezinho, na Ipueira, onde ganhou vinte mil réis. Tal convite viera aumentar sua fama, começa ali a ser um respeitado sanfoneiro na região.
.
Casamento? Gonzaga só pensava nisso. Comprou até aliança. Queria casar com Nazinha, filha do Seu Raimundo Milfont, um importante da cidade. O pai da moça ao tomar conhecimento das intenções do aprendiz de sanfoneiro, não permitiu o namoro. "Um diabo que não trabalha, não tem roça, não tem nada, só vive puxando fole". Gonzaga não hesitou, indignado, comprou uma peixeira, tomou umas truacas (cachaça), quis brigar, quis matar, mas acabou levando outra surra de Santana. Dessa vez fugiu triste para o mato, mas com uma idéia fixa na cabeça: entrar para o Exército.
.
Dizendo que ia a uma festa deixou a terra natal rumo ao Crato, no Ceará, cidade maior e mais próspera, onde vendeu a sanfona e pegou o trem para Fortaleza, alistando-se em seguida. Com a Revolução de 1930, o batalhão de Gonzaga percorreu muitos Estados até chegar à cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Ali, conheceu outro sanfoneiro, Domingos Ambrósio, o grande amigo que lhe ensinara os ritmos mais populares do Sul: valsas, fados, tangos, sambas. Gonzaga tirou de letra. Em 1939 deu baixa no Exército e seguiu para São Paulo e em seguida para o Rio de Janeiro. Passou então, a apresentar-se em bares da zona do meretrício carioca, nos cabarés da Lapa e em programas de calouros, sempre tocando músicas estrangeiras. Em uma dessas apresentações, um grupo de estudantes cearenses chamou-lhe a atenção para o erro que estava cometendo: por que não tocava músicas de sua terra, as que Januário lhe ensinara? Luiz seguiu o conselho e passou a tocar e compor músicas do Sertão Nordestino. Foi no programa do Ary Barroso que Gonzaga recebera calorosos aplausos pela execução do Vira e Mexe, música de sua autoria, proporcionando ao até então desconhecido Gonzaga o seu primeiro contrato pela Rádio Nacional, no Rio de Janeiro.
.
Na solidão da cidade grande, distante de sua família e do seu pé-de-serra, Gonzaga não dispunha de ninguém que dele cuidasse. Apesar de estar morando com seu irmão Zé, demonstrava vontade em construir seu próprio lugar, sua própria família. Teve diversos amores o mais conhecido foi com a corista carioca Odaléia Guedes, em meados do ano de 1945, tendo-a conhecida já grávida, assumindo e registrando como seu filho Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior - Gonzaguinha. Apesar de ser bastante exigente Gonzaga finalmente encontra o que procurava, Em 1948 conhece a pernambucana Helena Cavalcanti, tornando-a sua secretária particular e mais tarde sua companheira. Tal união estendeu-se até perto de sua morte. Não tiveram filhos, pois era estéril.
.
O apogeu do Baião perpassou a segunda metade da década de 40 até a primeira metade da década de 50, época na qual Gonzaga consolida-se como um dos artistas mais populares em todo território nacional. Tal sucesso é devido principalmente à genialidade musical da "Asa Branca" (composição dele com Humberto Teixeira), um hino que narra toda trajetória do sofrido imigrante nordestino.
Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação.
Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira
A partir de 1953 Gonzaga passou a apresentar-se trajado com roupas típicas do Sertão Nordestino: chapéu (inspirado no famoso cangaceiro Virgulino Ferreira, O Lampião, de quem era admirador), gibão e outras peças características da indumentária do vaqueiro nordestino. Alia-se a esta imagem a presença de sua inconfundível Sanfona Branca - A Sanfona do Povo. Com o surgimento de novos padrões na música popular brasileira, o apogeu do Baião começa a apresentar sinais de declínio, apesar disso, Gonzaga não cai no esquecimento, pelo menos para o público do interior, principalmente no Nordeste. Todavia, foi o próprio movimento musical juvenil da Década de 60 - notadamente Gilberto Gil e Caetano Veloso, este último e depois Gonzaguinha regravando ambos o sucesso Asa Branca, responsáveis pelo ressurgimento do nome Gonzaga no cenário musical do país. Em março de 1972 em show realizado no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, marca o reaparecimento de Gonzaga para as platéias urbanas. Nessa época retorna às paradas de sucesso como "Ovo de Codorna" cuja autoria é do nordestino Severino Ramos.
.
Após longo período de atividade profissional, cerca de 35 anos, é chegada a hora de retornar a sua terra natal. Em Exu dá início à construção do tão sonhado Museu do Gonzagão, localizado às margens da BR-122, dentro do Parque Aza Branca (escrevia desta forma por pura supertição, embora soubesse do erro ortográfico). Lá se encontra o maior acervo de peças pertencentes ao Rei do Baião: suas principais sanfonas, inclusive a que tocou para o Papa em Fortaleza; suas vestimentas; seus discos de ouro; troféus; diplomas; títulos; fotos e presentes a ele ofertados ao longo de sua brilhante carreira. Além do Museu, o Parque abriga também o Mausoléu da família, lanchonete, grande palco de shows, várias suítes para acolhimento de visitantes, a casa de Vovô Januário, lojinha de souvenir e a casa grande de onde Gonzaga observava a sua pequena Exu.